Desde criança, tinha o sonho de ser professora. Aos 10 anos, enfileirava as bonecas no banco do jardim e, com um quadro-negro improvisado, dava aulas de português, ciências ou o que me viesse na telha. O tempo passou e só voltei a “lecionar” com 16 anos, fazendo estágio num grupo escolar. Havia me formado em magistério. Adorava os “aluninhos” que me chamavam de “tia”, crianças magrinhas, afetivas e bonitas na sua inocência.
Anos depois, já na faculdade, mais estágios, dessa vez com adolescentes. A escola, na periferia da Grande Belo Horizonte, era distante de minha casa. Mas, para mim, nenhum problema, a não ser a dificuldade em administrar horários, já que de manhã cursava geografia na Universidade Federal, à noite, estudos sociais na Faculdade Newton Paiva, à tarde, italiano e, para completar, o estágio. Saía às sete da manhã, só retornando às 23h30. Minha mãe, preocupada, via a filha ir “sumindo” (nos dois sentidos) a cada dia.
– Filha, você tem que se alimentar direito. Dá um jeito de passar em casa para almoçar, jantar, essas coisas.
Naquele pique peculiar aos jovens, a última coisa de que eu me lembrava era da alimentação. Passava mais tempo dentro dos ônibus do que nas aulas em si. Pra cima e pra baixo, até o dia em que caí, semidesmaiada, entre a roleta e o trocador.
– Menina, há quanto tempo você não se alimenta? – perguntou-me uma senhora, preocupada.
E, constrangida, fui fazendo a retrospectiva de minhas refeições, não a daquele dia, porque só me lembrava do café, mas a do dia anterior. Almoço: um pão de queijo no Kid Batata; jantar, um quibe no Rei do Kibe (será que ainda existem?). Tudo regado a refresco e Coca-Cola. Veneno puro!
Por ser pequena e com uma aparência meio infantil, além da insegurança natural à nova experiência, impunha zero respeito.
– VOCÊ que vai ser a professora??? – indagavam os alunos num misto de surpresa e graça.
Os alunos eram bem maiores do que eu. Com seus bigodinhos, tatuagens, hormônios e risinhos debochados, levaram-me a questionar o que era mesmo que eu estava fazendo ali. Acostumada com professoras mais velhas do que eu, gabaritadas e experientes, a garotada de repente se viu no céu, e eu, no inferno, naturalmente.
Descobri que na sala o que menos tinha era aula. Não porque eu não quisesse, mas devido às circunstâncias e aos eventuais contratempos, como a ausência, por algum motivo, da responsável pela turma.
Aos alunos faltava tudo: livros, cadernos, vontade, disposição... E foi com alívio que vi retornar, dois dias depois, a professora titular.
Escrevo, rindo sozinha, ao me lembrar desses longínquos episódios. Apesar de tudo, era uma época em que ainda existia certo respeito nas salas de aula, uma hierarquia a ser seguida, uma deferência nas relações, o que hoje, pelo que consta, mudou bastante.
O quer esperar dessa juventude em formação, sem limites, sem exemplos, vivendo em meio a uma escalada da violência, muitas vezes dentro da própria casa? O que está ocorrendo em nosso país, em que a indústria da criminalidade é a que mais prospera? “Empregando” menores e jovens sem outras oportunidades?
Palco de crimes insanos e ameaças constantes, nossas creches e escolas tornaram-se a pauta do momento.
Forma extrema da violência, o homicídio é plantado e regado continuamente nas telas da televisão e pela imprensa de modo geral. Afinal, desgraça é notícia, bondade e amor, não.
Não me espanto ao saber que um desequilibrado, provável vítima de bullying, carente de holofotes e de cuidados psiquiátricos, venha a cometer esse tipo de crime. Principalmente após concluir a repercussão que isso lhe possa gerar, a possibilidade de ser visto pela sociedade, mesmo que da maneira mais negativa e repugnante.
Já perceberam que, logo após um crime dessa natureza, seguem-se outros mais ou menos iguais? Por quê? Ora, porque viram na TV, nos jornais, nas redes sociais e se enxergaram ali, no centro das atenções!
Sabe-se que a divulgação de um suicídio na mídia ocasiona outros tantos, por isso foi proibida. Creio que é o momento de repensar essa questão da violência escolar, não bastando apenas omitir os nomes e detalhes desses crimes, como foi direcionado à imprensa. Assim como os suicídios, deveria ser proibido divulgar esse tipo de matéria. Para que, assim, outros desajustados não se espelhem nem articulem em suas mentes doentes de serem a próxima notícia.