Na obra vitalícia em que nos exigimos tempo e energias para enfrentar o egoísmo e a ganância, tanto a nossa como a dos outros, acabamos por não aproveitar a sabedoria milenar que libertou e elevou seres humanos acima das limitações animalescas que se procuram superar no momento em que algo mais se acende e ilumina a caminhada.
Ao avaliar as aptidões de aspirantes que batem à porta de um monastério, os mestres de yoga distinguem três tipos básicos de disposição, ou temperamento, dos pretendentes.
São eles o “caráter bestial”, o “caráter heroico” e o “caráter divino”.
O primeiro grupo, o mais baixo degrau evolutivo, mais comum da humanidade, corresponde aos de caráter classificado como “bestial”, resultante da forte interação e conflitos de qualidades dinâmicas e inerciais da natureza. Nessa combinação estão presentes tendências indesejáveis, como a quase completa ausência de lucidez. A consciência ofuscada, parcial ou totalmente, e inoperante se manifesta na ilusão, irritação e indolência. Esta última faz com que o indivíduo considere ingrato submeter-se às obrigações, aos deveres, às tarefas que a vida lhe apresenta e fuja delas, acomodando-se no ócio e na inércia. Ou se entregando ao uso de bebidas, narcóticos e outros vícios. A pessoa desse grupo é considerada “atada”, e nas ataduras aparecem até oito laços diferentes, em graus variados: desprezo, dúvida, medo, pudor excessivo, aversão, costume, casta (posição social ou preconceito) e família. Este último, o laço familiar, é explicável como atadura impeditiva de assumir o próprio destino e missão ampla. Segue o sentido celibatário exigido nas congregações monásticas de qualquer religião.
Acabam, entretanto, sendo admitidos no monastério indivíduos não completamente libertos desses conflitos. Àqueles, carentes de preparação mínima, é aconselhado se esforçar servindo no nível que lhe é próprio, fortalecendo seu caráter e se exercitando no autocontrole.
O segundo grupo é dos indivíduos de “caráter heroico”, os que mesclam ardor e devoção nas obrigações, adotando a inteligência superior, estando fortemente liberto de impurezas. Estes estão bem próximos de entrar numa área sem turbulências emocionais e à disposição de missões “heroicas”, no sentido literal. E, como ele está livre de paixão, orgulho, aflição, raiva, inveja e ilusão, afastado das qualidades de agitação e inércia, é chamado de “herói”. Segundo a doutrina do raja-yoga, é este o praticante que foi além do jogo de opostos da mente, a ele são consentidos meios que para outros seriam fortes constrangimentos. O herói deve ser imune à desaprovação social, ou ostracismo, e permanecer firmemente na trilha a despeito de qualquer oposição e adversidade. Na idade das trevas em que se encontra a humanidade agora, só a disciplina heroica (em sânscrito, “vira-sãdhanã”) sustenta os frutos visíveis, embora se esconda e não reclame aplausos.
O terceiro grupo, o mais elevado, é de caráter divino, também produto dos componentes do heroico, mas com intensidade e qualidades excelsas. Eles são extremamente raros na época em que vivemos e deveremos viver ainda por longa era.
O desafio nisso é como ensina Dante: “Feitos não fomos para viver como bestas, mas para seguir virtude e conhecimento”.